3# BRASIL 5.2.13

     3#1 HEGEMONIA NAS URNAS EM 2014?
     3#2 NEGCIOS MINISTERIAIS
     3#3 O MTODO DE SEMPRE
     3#4 A EPIDEMIA SECRETA
     3#5 VAI, SIM. MAS VAI SER CARA
     3#6 O MANUAL DA PROPINA DA ALSTOM

3#1 HEGEMONIA NAS URNAS EM 2014?
Alm de reeleger a presidente Dilma, o PT acredita que pode atingir a hegemonia poltica neste ano, fazendo a maior bancada no Congresso, conquistando o comando nos trs principais estados do Brasil e consolidando seu poder nos rinces.
ADRIANO CEOLIN, DE IUI (BA)

     Vale do Iui, regio formada por oito municpios na divisa entre Bahia e Minas Gerais, j foi um dos maiores produtores de algodo do Brasil. Nos anos 1970 e 1980, caminhes pau de arara chegavam de diversas partes do pas apinhados de homens, mulheres e crianas que ajudariam na colheita do chamado ouro branco. Sobrava emprego. A queda da produo, no entanto, comeou a jogar as famlias na misria. Em decadncia econmica, o distrito rural de Iui se emancipou e, em 1989, virou municpio. Desde ento, coronis e comerciantes controlam o poder. Os governos de Lula e Dilma Rousseff no mudaram essa realidade, mas houve uma adaptao: os poderosos locais aderiram ao PT e a suas benesses, servindo de correia de transmisso dos interesses polticos e eleitorais do partido. "Sempre fomos amigos do ACM", lembra o prefeito Vagner Frota, um admirador do ex-governador Antonio Carlos Magalhes. Ele j pertenceu aos quadros do PTB e ao PRP. Filiou-se ao PT s vsperas da eleio, em 2011, e se elegeu por apertados dezenove votos de diferena. 
     H alguns anos seria impensvel um carlista se transformar em petista, ou vice-versa, mas a converso de Frota segue a estratgia do partido de conquista total do poder, seja nos rinces mais distantes, seja no Congresso Nacional. O prefeito  um mdico rico que ganhou fama por reservar um dia da semana para atender os pobres. A oposio o acusa de usar a caridade para conseguir votos, mas ele diz que apenas j praticava o que hoje fazem os mdicos cubanos. Popular, Frota foi convidado pelo vereador Raimundo Castro a trocar de partido. Em Iui, metade dos 11.000 habitantes recebe o Bolsa Famlia  e o programa, como em tantas outras cidades, explica a chegada do PT  prefeitura. Pouco depois de ser eleito vereador, em 2004, o petista Raimundo Castro obteve o direito de operar uma correspondncia bancria da Caixa Econmica Federal, utilizada pela populao para sacar o dinheiro do Bolsa Famlia. Com esse instrumento em mos, Castro conseguiu mais um mandato de vereador e ajudou a eleger Frota para a prefeitura. Na campanha, os dois usaram at depoimentos dos ministros Gilberto Carvalho e Miiriam Belchior para mostrar que  como petistas e amigos do rei  teriam mais condies de levar verba federal para o municpio. 
     No s escolas e hospitais, mas a prpria sobrevivncia da populao de Iui est diretamente ligada ao caixa da Unio.  no "Centro Educacional Presidente Lula" que as crianas da cidade recebero o ensino fundamental.   no "Centro de Educao Infantil Presidenta Dilma Rousseff" que a pequena Liliane estudar a partir deste ms. Ela  a caula dos cinco filhos de Elias Rodrigues dos Santos, que no tem emprego fixo desde 2002. Santos nem lembra onde guardou a carteira de trabalho. Para sobreviver, faz bicos como tcnico em eletrnica e mecnica e conta com os 394 reais que recebe todos os meses do Bolsa Famlia. "Essa  a minha valncia, e eu agradeo muito. Mas gostaria de no ficar tanto na dependncia do governo. Queria ter um emprego fixo." A realidade de Iui se  repete na maioria dos municpios de pequeno porte do pas. Historicamente, eles vivem sobretudo das verbas federais. Quem ganha com isso  a legenda que est no poder. Foi assim com o PMDB e com o PSDB.  assim, agora, com o PT. A diferena  que os petistas ampliaram, e muito, o leque de benefcios repassados e a presena da mquina federal nas pequenas cidades, tornando-se tambm um partido dos grotes. At 2004, o PT comandava 140 municpios com at 100.000 habitantes. Dez anos depois, o nmero quadruplicou (veja o quadro na pg. 53). Esse crescimento repercutiu no Congresso. Atualmente, a bancada petista  a maior da Cmara, com 86 parlamentares. Neste ano, o partido espera ter 100 deputados eleitos. 
     "Estamos sendo massacrados. H programas que distribuem equipamentos, mquinas agrcolas, nibus escolar. Tudo que voc imaginar. Na hora de distribuir, eles s carimbam para a bancada do PT", afirma o lder do PMDB na Cmara, Eduardo Cunha. Aliados dos petistas no plano federal, os peemedebistas temem perder a presidncia da Cmara e a do Senado e reclamam da ofensiva do PT em busca do "hegemonismo" (veja a entrevista na pgina ao lado). Lula e petistas estrelados, de fato, falam da possibilidade de a sigla reeleger Dilma, conquistar os governos de Rio, So Paulo e Minas Gerais, formar a maior bancada na Cmara e, de quebra, ameaar o predomnio do PMDB no Senado. Se isso se confirmar, o PT ter alcanado um nvel de poder nunca antes experimentado pelo partido. Tal pretenso  legtima.  da essncia das agremiaes polticas buscar o poder e tentar a perpetuao nele. Quando estavam no governo, os tucanos projetavam pelo menos vinte anos de PSDB na Presidncia. Sonhar  do jogo. O problema est nas tentaes decorrentes do excesso de poder conquistado nas urnas. Nesse quesito, setores petistas j mostraram que qualquer arma pode ser empregada para mant-los no topo, mesmo aquelas que ameaam liberdades constitucionais e afrontam instituies republicanas. 
     Recentemente, radicais petistas tentaram manietar o Ministrio Pblico e levar adiante um projeto de censura  imprensa, como forma de retaliao pela investigao e denncia do esquema do mensalo, o maior escndalo de corrupo poltica da histria do pas. At ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) foram pressionados a absolver os mensaleiros, inclusive com a ameaa de se tornarem alvo de uma investigao parlamentar. Essas iniciativas no prosperaram porque os demais partidos governistas barraram os falces do PT. Apesar dessas divergncias, esses mesmos partidos, com o PMDB  frente, marcharo em defesa da reeleio da presidente Dilma. Todos esto negociando seu apoio eleitoral e seu precioso tempo na propaganda de TV em troca de ministrios e cargos de ponta (veja reportagem na pg. 56). Quando a poltica  feita  base de moedas, o risco de hegemonismo  real. Basta compr-lo. 

O AVANO SOBRE OS RINCES
Dez anos depois de chegar ao governo federal, o PT mais do que quadruplicou o nmero de prefeituras sob seu comando nos municpios com at 100.000 habitantes.
Ano 2000: 140
Ano 2003 O PT ASSUME O GOVERNO FEDERAL
Ano 2004: 361
Ano 2008: 494
Ano 2012: 581
Fontes: Tribunal Superior Eleitoral, Fundao Perseu Abramo e IBGE

O AVANO NO CONGRESSO
A meta do PT  aumentar a bancada de deputados e senadores
1998  Cmara 50; Senado 7
2002  Cmara 91; Senado 11
2006  Cmara 83; Senado 12
2010  Cmara 86; Senado 14
2014  Cmara 100; Senado 20 (estimativa do partido)

"VOC NO MUDA O BRASIL EM DOZE ANOS" 
O deputado federal Jos Guimares  um dos vice-presidentes do PT. Lder da bancada at dezembro passado, ele  considerado um articulador habilidoso. Ao contrrio de algumas lideranas do partido, transita com desenvoltura por todas as correntes do PT, das mais radicais s moderadas, sem se comprometer com nenhuma delas. Irmo do mensaleiro Jos Genoino, o parlamentar  defensor do projeto petista de controlar a imprensa. No ano passado, depois do resultado do julgamento do mensalo, porm, foi um dos poucos petistas a se posicionar contra a aprovao da lei que restringia os poderes de investigao do Ministrio Pblico. Nesta entrevista, Guimares diz que para o PT  fundamental conquistara hegemonia poltica nas urnas neste ano. 

O que h de novo no projeto eleitoral do PT neste ano? 
Vamos ter candidaturas prprias e competitivas nos trs maiores colgios eleitorais do pas: So Paulo, Rio de Janeiro e Minas.  um fato muito relevante. 

Isso foi pensado estrategicamente? 
So Paulo e Minas, sim. Houve uma construo. 

Por qu? 
Pela importncia desses estados. So estados governados pelo PSDB. Isso tem um sentido poltico muito grande. 

Qual  a finalidade de ter essas candidaturas fortes? 
Eleger novamente a presidente Dilma Rousseff. 

Qual a anlise que o senhor faz sobre uma possvel vitria nesses estados? 
Nunca governamos So Paulo ou Minas. Se ganharmos os dois, ns estaremos nas nuvens. Se ganharmos um, estaremos atravessando todas as turbulncias. 

O que isso significa? 
Significa que est consolidada a nossa hegemonia e que a sucesso presidencial futura (em 2018) passa por esses estados. 

Por que visar  hegemonia? 
Porque ns governamos o pas. Qualquer partido quer manter seus nichos de poder, como o PSDB, que j governa So Paulo h mais de vinte anos. Qualquer partido tem vocao para o poder. 

 realista a meta de eleger 100 deputados federais? 
Nossa expectativa  que a bancada cresa, tanto na Cmara quanto no Senado. Mas ainda no temos uma projeo. Nem podemos dizer quantos parlamentares elegeremos. 

O PT est h doze anos no governo federal... 
 pouco para fazer tudo aquilo que a gente vem fazendo. Voc no muda o Brasil em doze anos.  preciso haver mais governos progressistas para fazer as transformaes. 

O projeto inclui os partidos aliados? 
De preferncia. 


3#2 NEGCIOS MINISTERIAIS
Em ano eleitoral, o governo precisa compensar os mais de dez partidos polticos aliados com cargos em um dos 39 ministrios. O resultado disso?...
HUGO MARQUES

     O governo anunciou na semana passada a primeira etapa da mais recente reforma ministerial. O senhor da foto ao lado atende pelo nome de Manoel Dias.  o atual ministro do Trabalho, indicado pelo PDT, partido que se adonou da cadeira ainda no governo Lula e de l no saiu aps a posse de Dilma Rousseff como presidente da Repblica  nem deve sair. Na diviso do mapa do poder, o PDT  o donatrio do Ministrio do Trabalho, acontea o que acontecer. Para o governo, o importante  manter o apoio dos partidos aliados, a despeito do desempenho e da conduta dos que comandam as pastas. Manoel Dias  um smbolo desse modelo. Ele foi nomeado em maro do ano passado por indicao do presidente do PDT, Carlos Lupi, que foi demitido debaixo de acusaes de cobrana de propina de entidades que recebiam verbas do ministrio. Na ocasio, a pasta foi entregue a Brizola Neto, rival de Lupi e expoente de outra faco pedetista. Presidente do partido, Lupi reagiu: ameaou levar o PDT para a oposio e, com isso, ganhou o ministrio de volta. Como no cairia bem ele prprio retornar ao cargo de ministro, indicou Manoel Dias, um de seus mais fiis escudeiros. A confuso foi em 2011. 
     De l para c, o ministrio passou por outros escndalos. Um deles resultou at em prises, numa operao policial em que o nmero 2 da pasta teve de se explicar a um delegado. Mesmo assim, o PDT continua firme e forte no ministrio. To dono que as duas faces do partido  a de Lupi e a de Brizola Neto  esto agora numa guerra fratricida para definir qual delas levar a melhor na reforma ministerial iniciada na semana passada por Dilma (veja o quadro ao lado), num esforo para conseguir uma vaga para representantes dos catorze partidos que apoiam o governo. Um lado acusa o outro de recebimento de propina. "Agora  guerra de bugio. Eles de l e ns de c", disse a VEJA um auxiliar de Lupi, referindo-se a uma espcie de macaco que, quando briga, costuma lanar dejetos nos rivais. A nica certeza que os bugios tm  que o cargo continuar com o PDT. 
     Outro donatrio de uma parcela da Esplanada, o PMDB tem sob seus domnios o Ministrio da Agricultura. A exemplo dos colegas pedetistas, o partido j passou por diversas acusaes de malfeitos na pasta. Mas, tambm nesse caso, segue firme no comando. O caso de um frigorfico do Paran que vem brigando para conseguir seu registro no Servio de Inspeo Federal (SIF)  um exemplo acabado de como  e por que  os interesses polticos falam mais alto. Com capacidade para abater 420.000 aves por dia e faturar 1 bilho de reais por ano, a BR Frango est com a linha de produo paralisada desde agosto por no conseguir o registro. Na rea tcnica do ministrio, tudo j foi resolvido. Um diretor da pasta, porm, revelou que o problema  poltico. Advogados da empresa protocolaram no ministrio um documento no qual acusam o deputado Osmar Serraglio, presidente do PMDB do Paran, de impedir o registro. Em reunies gravadas pelos representantes da empresa, os burocratas do ministrio deixam claro onde est o obstculo. "Eu no podia fazer nada... Quem  o presidente do PMDB hoje?", diz um deles, resignado. Serraglio tem entre seus doadores de campanha um frigorfico paranaense, concorrente da BR Frangos. A VEJA, ele admitiu que trabalha contra a liberao do registro para a BR  e, por consequncia, a favor dos interesses do concorrente, cuja sede est na cidade de Umuarama, seu reduto eleitoral. Alm das mudanas j anunciadas, outros seis novos ministros devem ser indicados nos prximos dias. 

ALIADO X ALIADO
O ministro do Trabalho, Manoel Dias, indicado pelo PDT: troca de acusaes sobre propina.

INSTNCIA POLTICA
O ministro da Agricultura, Antnio Andrade, indicado pelo PMDB: decises de carter estritamente tcnico, como a concesso de registro para funcionamento de um frigorifico, so tomadas mediante autorizao de polticos do partido. 

O HOMEM FORTE
Aloizio Mercadante: o novo ministro-chefe da Casa Civil sai do Ministrio da Educao para ocupar uma das pastas mais importantes e poderosas do governo da presidente Dilma Rousseff 

ELEIO 
Alexandre Padilha deixa o Ministrio da Sade para cuidar de sua campanha ao governo de So Paulo. Antes de sair, cancelou um convnio da pasta com uma ONG fundada por seu pai 

MAIS MDICOS 
Scio de uma empresa de consultoria com atuao na rea da sade que prestava servios a prefeituras do PT, o mdico Arthur Chioro vai assumir o comando do Ministrio da Sade 


3#3 O MTODO DE SEMPRE
Alvo de um dossi apcrifo, o secretrio executivo do Ministrio da Previdncia descobre que os autores so antigos companheiros de partido.
ROBSON BONIN

     O secretrio executivo do Ministrio da Previdncia, Carlos Gabas,  um tcnico respeitado no governo. Servidor de carreira do INSS h 28 anos, ele conhece como poucos os meandros do sistema previdencirio. Seu currculo acadmico rene algumas das mais importantes instituies do Brasil e do exterior. Gabas tambm  um quadro orgnico do PT. Ligado a Lula e a outros petistas histricos, ele j foi ministro da Previdncia e hoje ostenta o prestgio de ser um dos auxiliares mais prximos da presidente Dilma Rousseff. A forma discreta de transitar nos assuntos do poder fez com que ele se tornasse no fim do ano passado um forte candidato a assumir a chefia da Casa Civil da Presidncia, um dos cargos mais importantes e cobiados da Esplanada. A possvel ascenso, no entanto, chamou a ateno de desafetos, e Gabas passou a sentir na pele uma das mais constrangedoras situaes que uma figura pblica pode enfrentar: uma saraivada de acusaes sobre sua vida pessoal e profissional difundida atravs de dossis annimos que chegam pelos Correios e se espalham pela internet. 
     Materializado em uma carta annima de quatro pginas, o dossi foi enviado ao Palcio do Planalto, ao Ministrio da Previdncia e a uma srie de rgos estratgicos do governo. Gabas s ficou sabendo do papelrio, postado por um remetente fictcio de So Paulo, quando o documento parou sobre a mesa do ministro Garibaldi Alves, em 19 de dezembro de 2013. A partir desse dia, o secretrio passou a reunir documentos sobre sua movimentao financeira e a de seus familiares, declaraes de imposto de renda, extratos bancrios e at escrituras de imveis para desqualificar as acusaes. Quando terminou, juntou o calhamao de documentos e entregou ao ministro Garibaldi com uma carta na qual rebatia treze acusaes. Ciente de que o ataque tinha como objetivo abalar sua credibilidade junto a Dilma, o secretrio foi ao Planalto e repetiu as explicaes ao chefe de gabinete da presidente, Giles Azevedo. "Fui vtima de uma srdida e criminosa campanha de difamao. E o diabo  que h coisas que no tem nem como responder.  tudo to absurdo", disse o secretrio. 
     Depois de prestar esclarecimentos aos superiores, Carlos Gabas decidiu tentar descobrir a origem do dossi. Consultou amigos dentro do governo, companheiros de PT. E acha que descobriu. Um ministro prximo contou-lhe que quem estava distribuindo o material apcrifo em Braslia era o ex-presidente do INSS Mauro Hauschild. A informao ampliou o campo de viso do secretrio. O dossi teria sido motivado por uma briga mais antiga. Gabas foi um dos defensores da demisso do colega em 2012. Hauschild deixou o cargo em meio a crticas por ter abandonado o rgo para participar de campanhas em seu estado, o Rio Grande do Sul. Outro ponto de atrito que justificaria os ataques a Gabas seriam as relaes de Hauschild com seus desafetos. 
     A ao teria a colaborao de amigos da ex-chefe do gabinete da Presidncia em So Paulo Rosemary Noronha. No fim de 2012, a Polcia Federal desmantelou uma quadrilha especializada em vender facilidades no governo. Comandado pelo petista Paulo Vieira, o bando mantinha relaes prximas com Hauschild e tinha em Rosemary Noronha uma das mais animadas colaboradoras. Segundo Gabas contou a colegas de ministrio, a quadrilha tentou de todas as formas coopt-lo. Com esse objetivo, certa vez, a prpria Rosemary procurou Gabas para saber "o que ele tinha contra Paulo Vieira" e para sondar se existiria alguma possibilidade de "aproximar os dois". O secretrio diz que foi justamente por se recusar a participar das traficncias da quadrilha que passou a ser alvo de dossis como o distribudo recentemente no governo. 
     Procurado por VEJA na semana passada, Carlos Gabas informou que vai adotar todas as medidas para punir os responsveis pelo dossi apcrifo: "Vou acionar criminalmente todo mundo que estiver envolvido nisso. Quero a indenizao mais alta que for possvel. S estou esperando passar esse processo da reforma ministerial, que me ps em evidncia". Questionado sobre o caso, Mauro Hauschild afirmou que nada teve a ver com o dossi: "Sempre tivemos uma relao de muita cordialidade, respeito e bastante profissionalismo. No conheo nenhum detalhe da vida pessoal do Gabas e jamais procurei algum tipo de informao de quem quer que seja". Hauschild se diz vtima de uma intriga no governo. 
     H duas semanas, Gabas reuniu-se com Lula para discutir seu futuro no governo. Na conversa, ouviu a confirmao de que Aloizio Mercadante seria escolhido para a Casa Civil. Lula pediu a ele que no ficasse chateado e aproveitou para convid-lo a trabalhar na equipe de campanha da presidente. O respaldo foi o sinal de que a tentativa dos inimigos de macular sua imagem no havia dado certo. A prtica de fazer dossis para atacar desafetos polticos, de to rotineira, tornou-se ao longo dos anos um mtodo de fazer poltica da ala de petistas aloprados  que no poupa nem os aliados. 


3#4 A EPIDEMIA SECRETA
O governo de Braslia escondeu os casos de dengue durante a Copa das Confederaes. Pior: a contaminao pode ser ainda maior em plena Copa do Mundo.
ROBSON BONIN

     Em junho do ano passado, as atenes do planeta estavam voltadas para Braslia. Palco da abertura da Copa das Confederaes, a capital federal recebeu autoridades e milhares de torcedores dos mais variados pases. O evento serviria de ensaio para a Copa do Mundo deste ano  um teste no qual a cidade acabou aprovada, mas sem muitos mritos. Marcada por confrontos entre polcia e manifestantes, a festa, sabe-se agora, aconteceu em meio a uma epidemia de dengue. O problema  que ningum dentro ou fora do Estdio Man Garrincha sequer desconfiava dos riscos de contaminao porque o governo do Distrito Federal simplesmente decidiu esconder os relatrios tcnicos que alertavam sobre o avano da doena. Uma deciso que teve dois objetivos: evitar um monumental constrangimento aos organizadores e omitir a negligncia dos administradores pblicos. O vexame, porm, pode ter sido apenas adiado. Sem aes concretas de preveno,  muito grande o risco de a dengue ressurgir com fora s vsperas da Copa do Mundo. 
     O desaparecimento dos relatrios foi descoberto pelo Ministrio Pblico do Distrito Federal em abril, quando os casos de dengue atingiam o pico (veja o quadro na pg. ao lado) e j representavam um aumento de 500% em relao aos nmeros registrados no mesmo perodo do ano anterior. Investigando o episdio, a promotoria de Defesa da Sade soube, atravs de funcionrios do prprio governo do Distrito Federal, que houve uma ordem informal para embargar a divulgao das ocorrncias de dengue notificadas. Os mapas epidemiolgicos produzidos pelos tcnicos, antes disponibilizados na internet, passaram a receber um carimbo de "circulao restrita" e sumiram da rede a partir de janeiro, ms em que os casos da doena comeam a aumentar por causa das chuvas. "Essa omisso foi criminosa. A Secretaria de Sade escondeu esses dados para no comprometer a imagem do governo, justamente s vsperas da Copa das Confederaes", acusa o promotor Jairo Bisol. 
     A dengue  transmitida pela picada do mosquito Aedes aegypti, que se reproduz em focos de gua parada. A molstia provoca febre alta, dores no corpo, dor de cabea e pode at matar. A forma mais eficiente de combater a proliferao do mosquito  conscientizar a populao a eliminar os pontos de reproduo do vetor. Um trabalho de campo que s pode ser feito adequadamente por meio da divulgao e do estudo dos dados sobre o avano da doena. Em 2013, o Distrito Federal registrou 11.594 ocorrncias de dengue  oito vezes mais em relao aos 1437 casos verificados em 2012. O nmero de infectados por grupo de 100.000 habitantes atingiu nveis que caracterizam uma epidemia, segundo o Ministrio Pblico. Para evitar que o problema voltasse a se repetir em plena Copa do Mundo, o governo precisaria ter investido em aes de preveno. Mas nada foi feito  ou melhor, quase nada. No fim do ano passado, o governador Agnelo Queiroz anunciou a liberao de cerca de 40 milhes de reais para a realizao de campanhas publicitrias para orientar a populao sobre as maneiras de combater a doena. 
     Segundo o Ministrio Pblico, nos ltimos dois anos o governo investiu apenas 8 milhes de reais em aes de publicidade contra a dengue. J os recursos aplicados no combate direto  molstia foram praticamente irrisrios. "E a o governo chega agora e diz que vai gastar 40 milhes apenas em publicidade? No deixa de ser estranho esse descompasso justamente num ano eleitoral", critica o promotor, que vai entrar nesta semana com uma ao de improbidade contra os responsveis pelo repasse de verbas. A Promotoria da Sade tambm conseguiu fazer com que o governo voltasse a publicar os relatrios epidemiolgicos sobre as ocorrncias de dengue. E os mapas atualizados mostram um cenrio no muito diferente do que se viu em 2013. O monitoramento fechado na semana passada revela que os casos da doena em Braslia j quadruplicaram em relao  primeira semana do ano. Indagada sobre as acusaes de manipulao, a subsecretria de Vigilncia em Sade, Marlia Coelho, negou qualquer irregularidade ou mesmo negligncia, mas no soube explicar por que ainda hoje os dados da epidemia do ano passado continuam inacessveis na pgina do governo. 

ESCONDENDO O JOGO
Os casos de dengue atingiram o pico nos dois meses que antecederam a Copa das Confederaes. Para evitar constrangimentos, o governo de Braslia determinou que a informao no fosse divulgada.
JAN 498
FEV 837
MAR 1696
ABR 3207
MAI 2891
JUN 1340
JUL 604
AGO 202
SET 141
OUT 96
NOV 69
DEZ 14
TOTAL 11.594


3#5 VAI, SIM. MAS VAI SER CARA
De 2007 para c, o gasto previsto com os estdios triplicou. Um aumento extraordinrio? No para os extraordinrios padres nacionais.
PIETER ZALIS

     O dado  assustador mesmo diante dos elsticos oramentos de obras pblicas no Brasil. A previso de gastos para a Copa, inicialmente de 2,6 bilhes de reais, j est em mais de 8 bilhes de reais  ou seja, triplicou. O primeiro nmero foi o que a CBF apresentou  Fita em 2007, quando o Brasil era candidato a pas-sede do evento. O novo nmero  resultado de um levantamento feito com base em dados do Portal da Transparncia da Copa, organizado com a Controladoria-Geral da Unio. 
     Se a notcia  ruim, pior  saber que no h nada de extraordinrio. Estudo realizado pelo Instituto de Logstica e Supply Chain com dezesseis obras do Programa de Acelerao do Crescimento (PAC), por exemplo, mostrou que o oramento inicial subiu de 11,45 para 20,06 bilhes de reais em trs anos, uma diferena de 75%. No Brasil, o custo das obras pblicas aumenta a cada tijolo assentado por trs motivos principais. O primeiro  que se planeja mal. "O poder pblico no tem tempo nem qualificao para elaborar seus projetos", afirma o economista Mansueto Almeida, do Instituto de Pesquisa Ecomica Aplicada (Ipea). Nos Estados Unidos, o tempo que se investe no planejamento de um projeto costuma ser igual ao tempo gasto com a sua execuo. J no Brasil, a primeira etapa no chega a representar um dcimo da segunda. H ainda a corrupo, e a burocracia, que, ao dificultar a emisso de licenas e financiamentos, tambm encarece a obra. "Quando se atrasa o cronograma, h custos adicionais s vezes to grandes que  preciso refazer o que foi feito", diz Almeida. 
     No caso da Copa, no entanto, h uma explicao adicional. O custo inicial previsto para construo e reforma dos estdios, de 2,6 bilhes de reais, estava claramente subestimado em 2007. A Alemanha, que havia sediado o campeonato no ano anterior, tinha gasto 6,2 bilhes de reais com suas arenas. E o Japo, anfitrio do evento em 2002 junto com a Coreia do Sul, havia torrado quase 20 bilhes de reais, em valores no atualizados. A distncia entre esses nmeros e o primeiro clculo brasileiro pode ser creditada tanto a um "vis de otimismo" dos organizadores, como crem alguns, como a um simples e proposital chute "para baixo" com o intuito de diminuir possveis resistncias ao evento. A segunda hiptese  a mais provvel. Outras promessas, afinal, foram feitas e deixadas para trs no caminho entre o sonho e a realidade. 
     Em 2007, o governo brasileiro anunciou que a Copa seria bancada sobretudo por financiamento privado. At agora, no entanto, o financiamento privado responde por apenas 6,3% das obras (veja acima). O governo federal bancou mais da metade dos estdios, sobretudo com emprstimos concedidos pelo BNDES em condies especiais para estados e construtoras. Comparando-se os gastos por cadeira construda, a Copa no Brasil  mais cara do que as duas anteriores, na frica do Sul e na Alemanha. Neste sculo, s  mais barata do que a do Japo e da Coreia do Sul, pases com mo de obra cara e nos quais as edificaes precisam ter caractersticas especficas para resistir a intempries, como terremotos e tsunamis. 
     Por aqui, as intempries tm sido de outra ordem. Os black blocs voltaram s ruas e, na semana passada, promoveram a usual baderna em treze capitais. Em So Paulo, um marceneiro teve o carro incendiado pelos mascarados e um jovem foi baleado pela polcia depois de, supostamente, atacar um policial com um estilete. Ao contrrio do que alardeiam os mascarados. Copa vai ter, sim. Mas o contribuinte vai ter de abrir mais a carteira. At onde isso vai no  seguro dizer. Os tijolos continuam subindo... 

UMA GOLEADA COM DINHEIRO PBLICO
A Copa do Brasil j  proporcionalmente mais cara do que as duas anteriores

Quanto vai custar a Copa
Gasto final 8,9 bilhes de reais
Previso inicial 2,6 bilhes de reais

De onde vem o dinheiro
Desse total
93,7%  dinheiro pblico
51,8% da Unio
36,5% dos estados
5,4% dos municpios
E apenas 6,3% vm da iniciativa privada

Comparao com as Copas anteriores
Pas: BRASIL (2014)
Gasto com estdios (em bilhes de reais): 8,9
Nmero de cadeiras: 528.901
Custo por cadeira (em reais): 16,8

Pas: frica do Sul (2010)
Gasto com estdios (em bilhes de reais): 6,4
Nmero de cadeiras: 576.500
Custo por cadeira (em reais): 11,2

Pas: Alemanha (2006)
Gasto com estdios (em bilhes de reais): 6,23
Nmero de cadeiras: 557.315
Custo por cadeira (em reais): 11

Pas: Coria do Sul e Japo
Gasto com estdios (em bilhes de reais): 18,75
Nmero de cadeiras: 987.931
Custo por cadeira (em reais): 19

COM REPORTAGEM DE LUCAS SOUZA


3#6 O MANUAL DA PROPINA DA ALSTOM
Documento da empresa investigada no Brasil por envolvimento no cartel dos trens ensina o caminho para subornar responsveis por licitaes.
ALEXANDRE ARAGO

     A empresa francesa Alstom , ao lado da alem Siemens, o principal alvo de investigaes sobre pagamento de propina para a obteno de contratos nos sistemas de transportes sobre trilhos dos governos federal, de So Paulo e do Distrito Federal. H ramificaes da apurao na Frana e na Sua. No caso da Alstom, se ainda havia dvidas se a corrupo era uma ao isolada de funcionrios ou prtica institucional da empresa, agora no h mais. Um documento de trs pginas, obtido por VEJA, explica aos dirigentes envolvidos em contratos com governos como se deve pagar propina para vencer licitaes. O documento foi produzido por um executivo da Alstom em 1997 e anexado a um processo na Frana pelo ex-diretor comercial da empresa Andr Botto. 
     O manual da propina da Alstom  dividido em cinco itens e utiliza eufemismos para justificar sua existncia  como o que diz que o "objetivo (do documento)  definir modalidades prticas de pagamento de comisses a terceiros". Logo no incio, h uma recomendao para evitar que o esquema seja descoberto:  necessrio "manter a confidencialidade indispensvel a esse tipo de operao". O guia recomenda ainda que os envolvidos no deixem rastros da propina nos registros fiscais da empresa. Assim, subornos viram pagamentos de comisso", cujos valores tm de ser devidamente registrados em contratos de "consultoria e suporte". Esses contratos, reza o documento, necessitam ter um texto-padro e ser assinados pelo diretor financeiro da companhia. As subsidirias da Alstom, como a Cegelec, tambm eram orientadas a seguir o guia prtico de corrupo da empresa. 
     As recomendaes foram seguidas  risca mundo afora, inclusive no Brasil. Em maro de 1998, um ano aps o manual ter sido escrito, a Cegelec venceu uma licitao de 13,4 milhes de dlares para fornecimento de sistemas de telecomunicaes  estatal federal Furnas. Outros documentos obtidos por VEJA mostram que, naquele ano, a companhia francesa fez ao menos um depsito no valor de 121.406 dlares na conta da MCA Uruguay, offshore registrada nas Ilhas Virgens Britnicas em nome do lobista Romeu Pinto Jnior. O depsito, conforme documento que o acompanhava, seria referente a pagamento por ''consultoria e servios de suporte local no projeto de telecomunicaes de Furnas" e estava assinado por um diretor da Alstom no Brasil  tudo conforme o manual. 
     Pinto Jnior, segundo apurou o Ministrio Pblico de So Paulo, era o responsvel por distribuir a polticos e burocratas o dinheiro da propina paga pela Alstom no Brasil. Ele prprio admitiu aos investigadores que fazia tal servio. Sua memria, no entanto, termina a  Pinto Jnior diz que no recorda quem eram as pessoas s quais ele entregava o dinheiro. 
     A Polcia Federal investiga dois braos desse esquema de corrupo: no setor de transporte ferrovirio e no de energia. At agora, dezessete funcionrios pblicos e das empresas foram indiciados. A parte do inqurito referente ao cartel do trem est nas mos do ministro do Supremo Tribunal Federal Marco Aurlio Mello. 
     Depois de receber o caso da Procuradoria-Geral da Repblica, em dezembro. Mello disse que iria analis-lo ainda durante o recesso da Justia, que acaba nesta semana. Caso o STF acolha a denncia, o processo ser desmembrado: os indiciados com direito a foro privilegiado respondero no Supremo, enquanto os demais voltaro  primeira instncia. Quatro citados tm direito a foro privilegiado: os secretrios estaduais Edson Aparecido (PSDB), Jos Anbal (PSDB) e Rodrigo Garcia (DEM) e o deputado Arnaldo Jardim (PPS). Todos at agora negaram envolvimento com o esquema da Alstom. 
     No manual dos investigadores, a primeira coisa que se aprende  que a corrupo tem dois lados, o de quem paga e o de quem recebe. O guia da propina da Alstom resolve parte da questo. Agora, falta a outra metade.  


